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A Lua sorrindo de capacete no alto da Elektra, com a Pedra do Baú ao fundo

relato de via

Elektra: a via onde tudo começou, três anos depois

Pedra Ana Chata, São Bento do Sapucaí (SP)5 min de leitura

A Elektra foi a primeira via que a gente fez no Complexo do Baú, em junho de 2021, guiados pelo Azeite. Foi onde tudo começou, e não foi bonito: teve choro, desespero e queda. A Lua chorou pendurada na parada da árvore e caiu no último lance.

Em abril de 2024, na quarta temporada do canal, a gente voltou para fazer de novo, desta vez guiando e revezando as cordadas. Era fim de semana de Festa na Montanha em São Bento do Sapucaí, e a parede estava lotada: uns doze escaladores na via, gente na frente e gente atrás.

É muito interessante refazer as vias do nosso primeiro ano de escalada. A percepção muda quando você vive outras experiências.

a Lua, na parada da árvore

Acesso

A trilha é a mesma da Ana Chata, e agora tem uma novidade boa: plaquinhas com QR code para chamar os bombeiros, que dividem a trilha em seções (Q1, Q2…). Cada vez que passar por uma, guarde o número: se precisar de resgate, é ele que diz onde você está.

Na placa da seção Q2, a trilha do Baú e da Ana Chata segue em frente, e a trilha dos escaladores sai pela esquerda. Ela fica bem inclinada perto da pedra. Você chega pela base da Peter Pan, passa pela fenda da Lixeiros, sobe um trepa-mato e anda mais um pouco até a base da Elektra.

Como é uma via muito famosa na região, em dia cheio tem fila. A gente subiu a trilha rápido para garantir o lugar e, mesmo assim, passou mais tempo parado nas paradas do que escalando.

As cordadas

São cinco cordadas, e a mais difícil é um quinto grau. Mas não se engane pelo grau: tem travessias, slabs e uma cordada inteira em móvel.

1ª cordada (Lua guiou). Um rampão de terceiro grau, bem tranquilo. O ponto de atenção é o fim: depois da última costura vem uma travessia num platô com mato, sem chapa, até a parada. Se você cair ali, cai bastante. Apesar de fácil, não menospreze. A cordada tem uns 45 metros e faz uma barriga grande na pedra. Repare no caminho num pedaço de história: um “pé de galinha” antigo cravado na rocha, que aparece até na foto do croqui.

A Lua guiando o rampão da primeira cordada, vista de baixo contra o céu azul a Lua guiando o rampão da primeira cordada

Parada opcional. Depois da primeira parada tem uma parada opcional. O grupo da frente usou ela para liberar espaço, e depois o Tata também parou ali para não ficar esperando.

Até a parada da árvore (Lua guiou). Já é uma cordada de quinto grau, pouco protegida, com uns esticões. Nada bizarro, mas pede cabeça. Antes da parada tem uma travessia em slab que, da primeira vez, parecia um escorregador sem mão e sem pé. Desta vez, a Lua guiou e achou outra coisa. A parada é numa árvore: a mesma em que ela chorou três anos antes.

A cordada em móvel (Tata guiou). Da árvore até a 4ª parada não tem chapa: o jogo de móvel não é opcional. É uma escalada de fenda e diedro, com muita oposição, curta e muito bonita. Você lê bem as formações, tem descansos para arrumar o pé e escolher a peça com calma. Só o crux pede compromisso: entrou, tem que mandar. Quem não gosta de oposição pode fazer “geladeira”, uma mão na fenda e a outra por fora. A exposição é ficar meio de costas para o abismo.

O Tata levou um jogo simples, do 0.4 ao #3, e separou três peças para o crux: o 0.4, o #2 e o #3. O 0.4 é a peça principal, que protege a entrada do crux e entra muito bem. Depois de virar o balcão no bico de pedra, ele pôs o #2 (o #3 não encaixou bem) com uma costura longa, para a peça não mexer, e fez uma proteção dupla para quem vem de segundo. Antes do crux, saindo da árvore, usou um .5 na primeira fissura, um .75 e um #1 num buraquinho bem fundo. No total, cinco peças.

O Cavalinho (5ª cordada, Lua guiou). Saindo da 4ª parada vem o lance icônico da via, o Cavalinho, com o Baú aparecendo do outro lado. A última cordada termina numa parada já no cume. Tem um esticão brabo: você deixa a última costura para trás, conta com um cristalzinho na rocha que ajuda a subir, e faz o crux com uma costura só, lá embaixo. Depois do crux não é difícil, mas é esticão até o fim. Foi aqui que a Lua caiu em 2021.

O Tata de capacete na parada, dando segurança, com o vale de São Bento do Sapucaí ao fundo o Tata na parada, dando segurança para a Lua no Cavalinho

Descida

Sem rapel: a Elektra termina no cume da Ana Chata e você desce a pé pela trilha turística. Contamos os detalhes no relato da Lixeiros. E atenção até o fim: um de nós virou o pé a uns cem metros do carro, na parte mais fácil do dia. É nas partes fáceis que a gente relaxa e se machuca.

Vale a pena?

Muito. É uma via famosa por um motivo: cinco cordadas variadas, uma cordada de móvel curta e linda, o Cavalinho e o cume da Ana Chata. Para a gente, ainda teve o gosto de voltar à via onde tudo começou e ver o quanto mudou. Só evite o fim de semana da Festa na Montanha se não quiser fila.

Grau e extensão são do nosso livro de escaladas. O beta e as peças são do que vivemos na via em junho de 2021 e em abril de 2024.

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