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O Tata e a Lua de capacete numa parada da Homem Pássaro, com a parede do Bauzinho e o vale de São Bento do Sapucaí ao fundo

relato de via

Homem Pássaro: cinco cordadas de escalada mista no Bauzinho

Bauzinho, São Bento do Sapucaí (SP)6 min de leitura

A Homem Pássaro era uma via nova para os dois. Fomos em maio de 2024, num sábado de Mountain Festival em São Bento do Sapucaí: escalada de dia, festa à noite e palestra no domingo. O Petzl ficou no Pet Lucão, de banho tomado, e a gente desceu para a base das vias do Bauzinho.

A promessa era de cinco cordadas de grau constante, todas com um crux, bem verticais, com sensação de esportiva, mas mistas: chapa e peça móvel o tempo todo. E teve uma novidade: a gente dividiu a guiada. O Tata guiou a 1ª e a 3ª cordada, a Lua guiou a 2ª e a 4ª.

Nenhuma cordada foi de graça. Não é que seja difícil, mas todas são verticais: você precisa estar no jogo o tempo todo.

no fim da via

Como achar a base

A trilha até a base das vias do Bauzinho não é difícil, mas tem bastante descida íngreme, e em alguns trechos há corda para se apoiar. Você passa pela base da Incrível Galba Atayde e segue. Mais à frente tem uma desescalada de uns 4 metros de pedra: desça devagar, é alto.

O ponto de referência é uma subida meio maluca no meio das árvores, no barro, por uma trilha de musgo, com uma árvore descascada lá em cima. A ordem na parede é a Irmãos Cortez e depois a Homem Pássaro. Logo antes da via tem um degrau de pedra que você precisa escalar para passar: quando chegar nele, você está perto. Equipe-se um pouco abaixo, onde tem espaço, e suba para prender a solteira na chapa que marca o começo da via.

Na saída tem duas fendas: um diedro contínuo à esquerda e uma fenda curta à direita. A via começa pela direita.

O Tata guiando o diedro da primeira cordada, de baixo para cima, com a corda vermelha a primeira cordada, no diedro

As cordadas

1ª cordada (VI mista, Tata guiou). Começa na fenda da direita: dá para pôr a primeira peça nos cristais, bem à esquerda de uma árvore, ou atravessar direto para o diedro. Como a linha segue para a esquerda, alongue as duas primeiras peças (uma fita de 60 cm basta) para não dar arrasto. O Tata usou um #1 no começo, um #2 no meio e um #3 no fim do diedro, mas a ordem pode mudar. Tem uma virada meio em layback: venha para a esquerda e chape o pé na altura da costura para entrar. Depois aparecem umas gavetas ótimas, você vira o balcão e chega num platô. Dali, entre duas chapas, vem o crux da cordada: uns três movimentos em reglete. São bons regletes, de 1,5 a 2 cm, a mão entra bem; o segredo é acertar o pé. Depois, mais duas peças pequenas (usamos .75 e .5) e uma diagonal para a esquerda até a parada, que é confortável. É um ótimo aquecimento.

Marimbondos. As fendas da primeira cordada ficam na sombra por bastante tempo, e os marimbondos que moram nelas podem estar lá dentro sem você ver, porque ainda não está calor para eles voarem. Escale em silêncio e com atenção.

2ª cordada (Vsup mista, Lua guiou). O croqui mostra duas fendas possíveis. A Lua pôs peças pequenas antes de entrar nos movimentos da fenda e mais uma, também pequena, numa gaveta antes do trecho entre duas chapas. Você nunca fica exposto. De segundo, com sapatilha gasta, a gente achou essa cordada até um pouco mais difícil que a primeira, por causa da rocha lisa.

3ª cordada (VIsup mista, Tata guiou). Bem esportiva e bem reta. São umas seis chapas, depois uma laca deitada que vira gaveta para uma peça (o Tata usou só uma, um .75), um trecho fácil e mais chapas até o crux, que é muito bem protegido. É um lance de alcance: quem tem menos de 1,60 m vai sofrer, quem tem 1,70 m ou mais leva vantagem. Não tem agarrão, é escolher entre um abaulado e um reglete. O Tata passou mais pela esquerda. A Lua, de segundo, caiu algumas vezes por ali e acabou fazendo pela direita, por dentro da parede: regletes ruins, um batentezinho para subir os pés, uma mão de balcão e uma laca usada só na pontinha dos dedos. Se você estiver guiando e não sair, a chapa fica na sua cara: dá para clipar e se puxar na fita.

4ª cordada (VI mista, Lua guiou). No croqui é um sexto grau, mas foi a cordada que a gente achou mais difícil. Tem um lance de tudo ou nada: ou você sobe um pé muito alto, ou dá um dinâmico, a menos que tenha uns 1,80 m. A nossa opinião: o crux de VIsup do croqui é mais fácil que esse. A gente inverteria os graus da 3ª e da 4ª. A Lua guiou e se emocionou, com a galera do Mountain Festival gritando nas vias do lado.

5ª cordada (VIsup mista). Começa bem vertical, com boas mãos e o pé em rocha lisa, daquelas em que você não bota fé, mas o pé fica. Depois vem um matinho, onde dá para pôr uma peça numa gaveta ou ir direto para a primeira chapa do último crux. Ele é um boulder curto: entre em layback jogando o corpo para a esquerda e vá trabalhando o pé até ganhar altura e ficar de pé. Passou dali, acabou. A parada são duas chapas, que dá para ver do topo do Bauzinho.

Descida

A gente não gravou a descida. O cume do Bauzinho tem acesso fácil e vive cheio de visitantes. O relato do Puro Montanhismo descreve um rapel com duas cordas de 60 m do cume até o colo entre o Bauzinho e o Baú. Confira com quem conhece antes de ir.

Dicas que a gente leva

  • Sol: a parede pega sol e a gente queimou o pescoço, mesmo de manga comprida. Leve algo para proteger o pescoço.
  • Pé: em todas as cordadas a mão é boa e o difícil é o pé, sempre em rocha lisa. Sapatilha com borracha boa faz diferença.
  • Estatura: os crux da 3ª e da 4ª são de alcance. Se você é baixinho, treine o dinâmico ou aceite um A0 na fita.

Vale a pena?

Muito. É uma via constante e bem protegida, ótima para treinar móvel com segurança. Para a gente, que começou em vias mais positivas, com muitos descansos, foi uma escalada mais pegada e mais completa. E dividir as guiadas deixou o dia ainda melhor.

Grau, extensão e número de cordadas vêm do croqui citado no Puro Montanhismo e das legendas do nosso vídeo. As fontes variam um pouco: há relatos que falam em 6º VIsup e 180 m. As peças e o beta são do que vivemos na via em maio de 2024.

a história completa

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