
relato de via
Arco da Toca: uma das 50 clássicas do Brasil, no sertão da Bahia
Itatim fica na Bahia, a umas 3h30 de estrada de Salvador, e não tem praia. A paisagem é outra: centenas de inselbergs, morros de pedra isolados no meio da caatinga. Foi o destino mais incrível que a gente visitou em 2024. A Lua tinha uma semana de trabalho em Salvador logo depois de um feriado prolongado: colocou o Tata no avião junto e a gente foi escalar.
O objetivo principal era o Arco da Toca, no Morro da Toca, uma das 50 escaladas clássicas do Brasil. Fizemos com o Cauí, do Montanhas de Itatim, que guia e dá cursos de escalada por lá.
Como chegar e onde ficar
- Chegada: avião até Salvador e depois estrada, de ônibus, carro alugado ou motorista, por umas 3h30. Atenção ao trânsito perto de Salvador e Feira de Santana. Boa parte da pista é simples e esburacada; à noite, redobre a atenção.
- Onde ficar: a gente ficou no Abrigo de Montanha de Itatim.
- Onde comer: na Dona Célia do Acarajé. A gente encomendava o almoço: peixe, moqueca, carne de sol com aipim.
- Horário: o sol é forte. Ou você começa às 5 da manhã, ou espera até umas duas da tarde. Venta bastante, e quando chove, seca rápido.
A beta do Cauí
No café da manhã, o Cauí explicou a via inteira:
1ª cordada (45 m, 3º sup para 4º). Os primeiros 30 metros não têm proteção nenhuma, nem fixa nem móvel, mas são agarrões enormes e sólidos: não tem como cair. Nos últimos 15 metros, mais verticais, entram umas três peças. A parada é na toquinha.
2ª cordada (30 a 35 m, 3º). Mais fácil ainda. Uma peça só, para guiar a corda e ela não prender no meio da toquinha. A parada fica no começo da moldura, à esquerda do mato. Dali dá para se desencordar e conhecer a toca inteira, de um lado ao outro.
3ª cordada (VIIa). Começa num quinto sup, vira sexto e chega no 7a: três ou quatro chapas, vertical, levemente negativo, agarras pequenas e regletes muito bons, pé alto. A parada fica na mancha branca, onde a rocha faz a curva.
4ª cordada (6º). Transversal: às vezes sobe, às vezes desce, sempre em agarrão. No finalzinho, antes dos riscos com um matinho, tem um sexto sup reto chato de fazer, porque você não quer cair no buraco. Se cair, não bate em nada, a queda é limpa, mas leve dois prussiks para conseguir voltar.
Até o cume. Depois, um trecho de segundo grau caminhando até o começo da aresta, que é a última cordada da Expressa. Dali você atravessa pelo alto as torres e desce por trilha em 15 a 20 minutos.
a terceira cordada, vista do drone
Como foi para a gente
A aproximação é tão curta que a Lua pensou que podia ter vindo de chinelo. Ela guiou a primeira cordada, em móvel, com duas colocações e sem chapa, e demorou um pouco montando a segurança de cima para trazer duas pessoas. O Tata guiou a segunda, também em móvel, saindo da borda da primeira toca.
Na terceira, o sétimo grau, o Tata entrou mas não saiu: desceu e trocou com o Cauí. A Lua veio de segundo, com muito medo e pedindo corda esticada, num lance que não tem conversa: tem que entrar e aceitar. Foi duro, e foi lindo. Saímos no cume já de noite e descemos a trilha no escuro.
Descida
Pela trilha, seguindo os totens de pedra. O rapel do Arco da Toca não é recomendado: não é reto e é difícil. Se for descer pela trilha, venha de bota ou tênis, não de chinelo. De noite é fácil se confundir; de dia, no dia seguinte, a gente viu o caminho que tinha feito no escuro e se assustou com a parte exposta.
Itatim além da escalada
Dá para caminhar em quase todos os morros: sempre tem uma trilha, nem que seja de gado. Preste atenção nas plaquinhas, porque os bois abrem caminhos para todo lado. O Morro da Toca tem uma trilha de uns 30 minutos até o cume, um pouco exposta, mais escalaminhada. Uma coisa triste: alguns inselbergs estão sendo explorados por pedreiras, e dá para ouvir as explosões de dinamite.
Vale a pena?
Muito. É um dos lugares de escalada mais bonitos que a gente já viu no Brasil, a rocha tem uma aderência ótima e o Arco da Toca é uma clássica de verdade. Vá com guia local se for sua primeira vez: o Cauí conhece o morro como ninguém.
Grau e extensão do nosso livro de escaladas; a beta das cordadas é a explicação do Cauí no vídeo. Fomos em maio de 2024.
a história completa



