
relato de via
Chaminé dos Coroas: a primeira via de escalada da Pedra do Baú
Quem já subiu a Pedra Ana Chata, pela trilha ou escalando, provavelmente reparou: na face do Baú que fica de frente para ela tem uma fenda diagonal enorme, com pedras entaladas. Desde a primeira vez que a gente viu aquilo, ficou a curiosidade. É a Chaminé dos Coroas, conquistada em 1940 e considerada a primeira via de escalada técnica da Pedra do Baú.
Em julho de 2024 fomos em quatro: o Tata, a Lua, a Carol e o Marcão (Vatrilhar). Escalar a Chaminé é uma viagem no tempo: você chega ao cume do Baú pelo mesmo caminho por onde ele foi escalado pela primeira vez. E, no fim do dia, a gente também entendeu por que tão pouca gente faz essa via.
Não é uma via para iniciantes. Apesar do quarto grau, não se engane: precisa de muita técnica de escalada e de logística.
no cume, no fim da via
Um pouco de história
A conquista é de 1940, mas a autoria tem duas versões. A descrição mais conhecida fala nos irmãos Cortez. A ficha técnica publicada pela Casa de Pedra em 2013 dá os nomes de Antônio e João Teixeira de Souza, e o próprio autor do texto diz que ninguém sabe ao certo se a primeira subida foi mesmo pela chaminé. O que é certo: é uma das vias mais antigas do Baú.
Como achar a base
Esse é o primeiro motivo pelo qual pouca gente faz a Chaminé dos Coroas. Não existia trilha registrada até a base, e a gente se perdeu: subimos quase até a via ferrata, entramos numa picada errada e tivemos que descer tudo de volta. Para registro: a Lua estava certa desde o começo.
O caminho que deu certo foi pela trilha principal, larga e sinalizada com as plaquinhas do parque, entre a Ana Chata e o caminho que vai para o Bauzinho. No meio dela, sai para a esquerda em direção à fenda. Gravamos o trajeto no Wikiloc para quem vier depois.
As cordadas
1ª cordada: trepa-mato. Não tem agarra, só capim e mato. É uma escalaminhada por uma rampa de vegetação na beira do precipício do Baú, com o mato solto, tipo terra de vaso, que escorrega quando você pisa. A gente passou uma corda para ajudar a subir. É exposto: vá com calma e olhe onde pisa.
a primeira cordada é no mato mesmo
2ª cordada: a Pedra Entalada. Aqui começa a escalada de verdade, com um crux bem legal. Tem slabs muito lisos e depois os blocos entalados. Quando você sai dos slabs, embaixo do primeiro bloco tem uma gaveta onde um camalot #2 entra muito bem.
3ª cordada: a chaminé. É a mais delicada. Não é difícil, mas o pé é liso e tem sujeira. Dentro da chaminé você fica corcunda, esmagado, e vai subindo meio como minhoca, com medo de tirar o pé para progredir. Lugar para peça é pouco, e o beta que o Henrique tinha passado se confirmou: em um trecho, você sai para fora da chaminé. A parada é numa árvore.
4ª cordada: mato e escadinhas. Bem tranquila. Uma rampa de mato e um trecho de escadinhas de ferro até o “biquinho” do Baú, saindo onde termina a via ferrata. A gente nem usou a corda: subiu com o mesmo sistema de solteiras da ferrata.
O que a gente aprendeu: a mochila
O desafio que a gente não planejou foi a logística das mochilas. Essa não é uma escalada limpa, por fora da pedra: você entra em fenda e em chaminé, e a mochila atrapalha muito. O que o Tata fez na terceira cordada foi se ancorar na primeira chapa fora da chaminé, onde tinha espaço livre para içar a mochila e colocá-la nas costas antes de continuar. Vá com a menor mochila possível, ou leve uma fita para içar ou pendurar a mochila na cadeirinha.
Descida
Pela via ferrata do Baú. Mantenha a cadeirinha e use duas solteiras (ou uma fita e dois mosquetões). Prenda uma no degrau de baixo, desça um pouco, solte a de cima e prenda embaixo, e assim por diante. Num trecho mais chatinho da descida, vale fazer segurança. E aproveite a vista: pegamos o fim de tarde com os raios de sol saindo das nuvens sobre o vale.
o prêmio no fim da Chaminé
Vale a pena?
Para quem gosta de escalada aventura, muito. Tem um pouco de tudo: bota peça, bate chapa, sobe ferrata, faz trepa-mato. É uma via histórica e quase ninguém vai lá. Mas venha preparado: o acesso é ruim, a chaminé cobra técnica e a mochila vira um problema.
Os dados de extensão, número de cordadas, grau e equipamento vêm da ficha da Casa de Pedra (2013) e do nosso livro de escaladas. O relato é do que vivemos na via em julho de 2024.
a história completa



